O terrível Malamém

Começou quando ele era ainda bem pequeno. O menino tremia de medo. Em qualquer lugar onde estivesse, bastava alguém falar no terrível Malamém que ele tremia como vara verde. O suor lhe escorria pela testa só de pensar nesta criatura horrenda que assombrava a sua mente infantil.

“O que faria tal monstro? Seria parente do Bicho Papão, da Cuca ou do Homem do Saco? Que horrores as crianças não passariam nas mãos do monstro?” – assim pensava o menino num medroso refletir e num turbilhão de perguntas sem respostas, o que era também compartilhado por vários coleguinhas da mesma idade.

Começou quando ele era ainda bem pequeno. Ouviu o nome do monstro terrível da boca dos adultos, o qual era citado com muita solenidade e respeito. Em vários lugares aonde ia, sempre ouvia a solene advertência contra o Malamém, principalmente, na igreja.

O medo o fazia pensar em coisas impossíveis, na tentativa de dar respostas às suas próprias perguntas em suspense: “O Malamém devoraria as crianças malvadas e desobedientes? Ou apenas dava sustos nos meninos malcriados?”

Pensava na origem do monstro: “Seria mesmo da família do Bicho Papão? Teria saído de uma das porções da Cuca? Era um primo distante do Homem do saco? Ou teria nascido da sujeira de um lixão, como aquele lixão que tinha visto na TV? Onde moraria o monstro?  Numa caverna úmida e tenebrosa? Numa floresta medonha e traiçoeira? Ou estaria ali na esquina, num beco escuro, numa moita, a espreitar esperando que o menino passasse para agarrá-lo e realizar seus intentos terríveis?” O medo assombrava o menino e o fazia viajar – e tremer – no fértil imaginário infantil.

 Uma coisa não entendia. Os adultos falavam muito do assustador Malamém, mas viviam a vida no dia a dia como se ele não existisse. Não tinham nenhum medo. Isto ele não entendia.

  Começou quando ele era ainda bem pequeno. Foi na igreja que ouviu pela primeira vez o nome do terrível monstro, a assustadora criatura da sua infância: “…assim como temos perdoado aos nossos devedores, e não nos deixes cair em tentação, mas livrai-nos do Malamém.”

Não entendia, apenas tinha medo…

Crônica selecionada e publicada na antologia nacional “Palavras desavisadas de tudo”. São Paulo: Editora Scortecci, 2013.

ATENÇÃO: esta obra é protegida ela Lei de Direitos Autorais (Lei 9.610/989) e foi registrada. É permitida a publicação em sites e blogs desde que citado o autor e a fonte com link. Para publicações em livros e e-book pagos, envie um e-mail para aldairars60@gmail.com para receber a autorização gratuita.

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