A loucura mora ao lado

Quando a pandemia chegou e mudou muita coisa. Os espaços foram codificados e modificados pelo distanciamento social – ora negociados, ora disputados, ora ociosos, quase sempre vazios. Os afetos ficaram distantes, amarelados. Estar distante tornou-se um gesto afetuoso. Não visitar, antes uma falta de consideração, passou a ser gentileza e favor. Beijar virou tchauzinho, no máximo um toque com os pés, cotovelos ou soquinhos. Espirrar virou horror e aversão, o Apocalipse!. Rostos sem máscaras passaram a ser odiados, até . Manter-se distante substituiu a aproximação. Amar virou sinônimo de ausência.
Para ilustrar esse caos de conceitos e ressignificações semânticas, trago o relato de uma vizinha, dona Leninha, pessoa absolutamente singular. Ela é uma vizinha não convencional, “maluquinha”. Quando me contou a história, no auge da pandemia, fazia cinco meses que estava confinada em casa. Mora sozinha e sempre disse ter medo da solidão e da depressão, que assolam senhoras acima dos 50, como ela. Porém, na ocasião, revelou-me que era um grande equívoco pensar dessa forma, pois não estava sozinha. Achara, dentro de casa, amigos que nunca tinha notado. “Eles estavam sempre ali, e eu não os notava…” – segredou-me. Ela me disse que, depois da quarta semana de confinamento, começou a ter longas conversas com eles. Confesso que fiquei curioso em saber dos amigos da minha vizinha.
- Minha primeira amiga foi a Totó.
- Totó?!
- Totó, a torradeira. É minha confidente. Sabe de todos os meus segredos, mas é esquentada e vive torrando minha paciência. Me queimo com ela de vez em quando. Perco a paciência, fico com raiva, largo dela e vou falar com a Mack.
- Mack?!
- Mack, a máquina de lavar. Gosto de conversar com ela. Depois que lavo roupa suja com ela, fica tudo em panos limpos. As falas da Mack são um pouco chatas. Ela gira, gira e para no mesmo lugar, mesmo assim é uma boa amiga. A Mack é amigável e de fácil convivência,  bem diferente da Gegê.
- Quem é a Gegê?!
- Gegê é a geladeira. É muito fria e egoísta. Tem aquele tamanho todo, mas é de pouco proveito. Outro dia me deu um gelo o dia todo. É muito conservadora, sensível e caladinha, diferente da Tetê.
- Quem?! Mais uma amiga?!
- A Tetê, minha televisão. Eita bichinha pra falar!… Fala pelos cotovelos, se bem que ela não tem cotovelos. Mas gosto quando ela fala das minhas novelas e das últimas fofocas das celebridades. Falei pra ela que tinha que ser como o Fogueiredo, que tem boca, mas não fala.
- A senhora quer dizer “Figueiredo”, né?! (Até que, enfim, um nome normal!)
- Não, é “Fogueiredo” mesmo! É o meu fogão. Como falei, tem bocas, mas não fala. Um pouco esquentado, chega a ferver, como a Totó, mas é bom ouvinte.
- Tem mais amigos, dona Leninha?!
- Tem, o Ventico e a Pâmela. O Ventico é o meu ventilador. É um alívio conversar com ele: são outros ares e boa conversa. Mas ele oscila muito, sabe, é idoso… Já a Pâmela é minha panela de pressão. É uma boa amiga, mas é calada, guarda mágoas, engole rancor e frustação. Já disse que ela tem de liberar toda essa pressão, senão vai explodir. Por fim, tenho o meu amigo Ferreira, que é o meu conselheiro mais eficiente.
- E quem é o Ferreira?! – perguntei já imaginando…
- É o ferro de passar. Tem dia que fico louca com esta pandemia, mas o Ferreira me consola: “Amiga Leninha, tudo isso vai passar, tudo isso vai passar!”.
Essas conversas terapêuticas de dona Leninha ajudaram-na a não enlouquecer no lockdow. O problema é que ela continua a falar com os objetos da casa, mesmo agora, quando a pandemia já passou. E o pior, celebrou até casamentos entre os objetos da casa.
Loucura?! Ora, a loucura não somente mora ao lado como também passou a morar dentro de cada um de nós. E, ao que parece, não quer mudar de casa.

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