O pai perfeito

O garoto parou na frente da loja. Era um lugar muito estranho. A placa dizia: ”VENDE-SE PAIS DE TODOS OS TIPOS”. Como estava descontente com seu próprio pai, pois o via com defeitos, entrou na loja para dar uma olhada nos modelos de pais. O garoto ficou extasiado com tantos modelos.

O Pai Biônico fazia praticamente tudo e mais rápido que um pai comum, era muito resistente, lavava e passava (para alegria das mães) e tinha garantia de vinte anos. O Pai Executivo era extremamente organizado e super-eficiente, perfeito administrador, um pai de resultados, todo lar gostaria de ter um pai assim. O Pai Sarado era muito bom, bonito de se ver, saudável, qualquer filho se sentiria orgulhoso e protegido com um pai assim. O Pai Trabalho era super-habilidoso, cuidava de todos os reparos da casa, e também deixa faltar nada para seus filhos e esposa, dando-lhes tudo o que precisam.

Havia, também, alguns modelos bem baratinhos que estavam permanentemente em promoção: O Pai Banana, ninguém comprava, parecia mole demais, não aguentaria nem o tranco de brincar com as crianças; o Pai Querida-você-que-manda, jogava as responsabilidades dele sobre a esposa; o Pai Zen estava sempre em alfa, longe das responsabilidades e demais atividades da sua casa; o Pai Novela-mexicana, apelava para melodramas infantis para tentar resolver as coisas chorando, lamentando e fazendo-se de vítima; o Pai Não-tenho-nada-com-isso, sempre se omitindo e fugindo das decisões firmes que deveria tomar no seu lar, adorava TV, Coca litro e clássicos do futebol como Criciúma X Friburguense; o Pai Cala-boca-e-me-obedece, precisava gritar e humilhar sua família só pra provar que é ele quem mandava; e o Pai Joio, que tem todo o jeitão de cristão, vai até na igreja, faz orações, mas suas atitudes não demonstram isso (o garoto olha a etiqueta do fabricante desse pai e não fica surpreso quando lê: “Made in Cappetta”).
No fundo da loja havia um setor de assistência técnica, com vários pais para fazer reparos e muitos pais devolvidos por defeito. O garoto ficou curioso pelos defeituosos, uma vez que havia alguns modelos que ele admirou ali na vitrine da entrada. Conversando com o técnico reparador, tomou ciência dos defeitos de cada pai devolvido.

O Pai Biônico foi devolvido porque era duro demais, não brincava, não sabia ouvir, se achava “o tal”, a manutenção e a troca da bateria eram muito caras, travava algumas vezes, além disso, era frio e não se ouvia as batidas do seu coração. O Pai Executivo foi devolvido porque era sisudo demais, não sorria, era muito ausente, chamava os filhos de “colaboradores” e a esposa de “secretária”, começou a estabelecer “metas” rígidas de “produção” para a família, além disso, não tinha garantia contra estresse e AVC. O Pai Sarado foi devolvido porque só vivia na academia, dava curto circuito quando a família falava a palavra “descanso”, dava “atenção” demais a outras mulheres (principal reclamação da esposa), além disso, era muito cansativo para a família acompanhá-lo. O Pai Trabalho foi devolvido ao começar a dormir com um martelo e uma chave de fenda e a chamá-los de “meus amores”, também dava curto-circuito quando a família falava a palavra “férias”, além disso, não tinha garantia contra infarto e doenças emocionais.

O garoto perguntou se não tinha um pai perfeito e o técnico reparador disse que não, mas havia uma equipe de cientistas estudando há duas décadas em como fazer um pai perfeito. A previsão de finalização do 1º protótipo do pai perfeito seria no ano de 2065, e ele se chamaria “Pai Cristão, o legítimo”. “O legítimo” era para não confundir com o Pai Joio ou com alguma falsificação.

O garoto, admirado e reflexivo, ouvia atentamente as palavras do técnico. De súbito, um estrondo, coisas rangendo, ruídos estranhos, e todos aqueles pais em manutenção e pedaços de pais, começaram a se levantar e a caminhar em sua direção, como se fossem zumbis ameaçadores. Ao que parecia, não estavam contentes com a presença do garoto. O garoto correu para a porta, mas um pai devolvido (e sem cabeça) postou-se na sua frente. O garoto ficou sem saída diante da aproximação ameaçadora daquele bando tenebroso de pais defeituosos. O garoto se agachou e protegeu a cabeça com os braços, esperando o pior e… acordou!!… Acordou suado e ofegante!… Foi tudo um sonho! Ufa!

Já era manhã. O sol desponta na janela do seu quarto. O garoto reflete por alguns minutos no seu sonho maluco, concluindo a reflexão com um sorriso. Ouve passos pesados no corredor: “Acorda, filho! Bom dia! Hora do café!” Era o seu pai! O garoto, de braços abertos e sorriso largo, corre para o pai e abraça-o longamente…

Seu pai era perfeito!

*ATENÇÃO: esta obra é protegida pela Lei de Direitos Autorais (Lei 9.610/989) e foi registrada. É permitida a publicação em sites e blogs desde que citado o autor e a fonte com link. Para publicações em livros e e-book pagos, envie um e-mail para aldairars60@gmail.com para receber a autorização gratuita para publicar.

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