Cicatrizes

As meninas gêmeas eram levadas de automóvel para a escola todos os dias por sua mãe. Perto da escola, já  iam dizendo:
- Mãezinha, não precisa levar a gente lá dentro, tá? Já vamos sozinhas!
- Tá bom, filhas. Beijos. Amo vocês.
Depois, as filhas já não queriam sair com a mãe, nem ao supermercado, nem ao parquinho, nem ao cinema…
A mãe desconfiava de algo, mas precisava da confirmação, que veio alguns dias depois: “mamãe, como suas mãos são feias!”, “sim, muito feias!” - suas filhinhas estavam com vergonha da própria mãe, por isso fugiam de estar com ela em público.
A  mãe imaginou logo o motivo: a aparência das suas mãos e braços. Tinha sofrido um incidente com fogo e queimou as mãos e os braços. As cicatrizes eram horríveis. A pele atingida em ondas, linhas e marcas, não era agradável aos olhos. A geografia retorcida e caricata, desenhada pelo impiedoso fogo, subia pelos braços dando aspecto alienígena ou de personagem de filme de terror (sem exageros).
Não perdeu os movimentos, mas ficou muito feio. E agora? Como abordaria esse fato com as filhas de modo que pudessem entender e aceitar? Contaria a verdade, nua a crua, pois já eram grandinhas para entender.
No aniversário de seis anos das meninas, a mãe lhes conta como adquiriu as cicatrizes. “Era uma noite escura, tinha faltado energia, acordei na madrugada com fumaça dentro do quarto. Nossa casa estava pegando fogo. Pensei nas minhas meninas no berço e corri ao quarto de vocês. O quarto estava em chamas. Vocês choravam muito e os berços estavam quase para ser tomados pelo fogo. Peguei uma toalha molhada no banheiro, afastei os panos e objetos que estavam queimando, peguei vocês, enrolei na toalha molhada e corri para fora. Afastei várias coisas e evitei outras que caiam em brasa em cima de nós. O que importava era salvar minhas meninas e não a minha segurança. Já fora da casa, fui socorrida por amigos e vizinhos e depois pelos médicos. Só aí percebi que minhas mãos e braços estavam em carne viva, porém inteiros. A dor era insuportável, mas não liguei pra isso, desde que minhas meninas estivessem a salvo. Essa é a história desses braços de E.T. (risos)”.
No dia seguinte, as crianças trouxeram café na cama e um presentinho para a mãe. A uma só voz recitaram o que haviam combinado entre si: “Bom dia, mãezinha, te amamos, suas mãos são tãããão liiiiindaas!”

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*ATENÇÃO: esta obra é protegida pela Lei de Direitos Autorais (Lei 9.610/989) e foi registrada. É permitida a publicação em sites e blogs desde que citado o autor e a fonte com link. Para publicações em livros e e-book pagos, envie um e-mail para aldairars60@gmail.com para receber a autorização gratuita para publicar.

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