A revolta das palavras

As palavras falam mais do que significam, comunicam mais do que dizem. Mas algumas não estão contentes com seus significados. Há um surto de desgosto vocabular, uma crise semântica entre elas, uma revolta das palavras. Reunidas em assembleia, cada uma delas expressa seu descontentamento.
Dona “Assembleia” abre a reunião e  concede a palavra para as demais palavras presentes.
“Fabuloso”, tomando a palavra, diz que quer trocar o seu significado tradicional para significar imensas bulas de remédios.
“Pitsqueiro”, embora em desuso, afirma que quer ser apenas a arte de dar piti. “Piti” não gostou desse novo significado, pois implica em deixar seus irmãos gêmeos semânticos, o “Escândalo” e o “Chilique”, os quais já estavam agindo tal qual significam.
Já a saudosa “Chumbrega” afirma que não se conforma em ser cafona ou esquisita,  preferia significar um elemento químico da Tabela Periódica.
“Sirigaita” dá um salto, protesta contra a sua má fama e sugere significar apenas um siri tocando gaita.
A desgastada “Marmota” logo afirma orgulhosa “vou me ressignificar, retirarei o ‘mota’ de mim, tenho tudo a ver com mar.”
“Abundância” diz que quer tirar o seu primeiro “A” e o “ncia”, mas foi advertida pelo “Decoro” e pela “Decência” de que não cairia bem a palavra que sobraria. 
Em seguida “Decência” e “Decoro” protestam as próprias ausências no meio político e no povo comum. Neste momento as irmãs “Mentira” e “Hipocrisia” se levantam vangloriando-se de serem as rainhas do mundo político e midiático.
“Amor” e “Roma” conversavam sobre as mudanças, mas não se entendiam bem por serem palíndromos (palavras que podem se lidas da direita para a esquerda e vice-versa), uma confusão.
“Aperitivo” não se conforma com tragos mínimos e pequenas porções, queria algo mais nobre, queria ser nome de passarinho.
“Aquiescência” é saudosista, cansou de concordar e anuir, lembrou do seu antepassado em latim “Acquiescentia,” que significava “não fazer nada”. Quer voltar a esse seu antigo significado.
“Arcaico”, cansado de ser antiquado e obsoleto, sai com essa: “quero ser nome de banda de Rock.”
“Arenga”, “Rixa” e “Quiproquó” iniciaram um pequeno tumulto, mas logo foram contidas pela “Deixa-disso” e pela dona “Assembleia.”
A reunião continuou com os queixumes, sem hora nem palavras para terminar… De modo geral as palavras se revoltaram com seu uso ou desuso. Reclamam que não terem mais os significados e usos antigos e almejam ressignificações.
Por fim, levanta-se o “Tempo”. Contempla silencioso as palavras.
— E você “Tempo” que mudanças quer fazer?
— Nenhuma, minhas amigas, estou só passando. E saiu.
Com o passar do tempo, a reunião se desfez em silêncio. E foram-se… levadas pelo tempo.
 

*ATENÇÃO: esta obra é protegida pela Lei de Direitos Autorais (Lei 9.610/989) e foi registrada. É permitida a publicação em sites e blogs desde que citado o autor e a fonte com link. Para publicações em livros e e-book pagos, envie um e-mail para aldairars60@gmail.com para receber a autorização gratuita para publicar.

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