O Ancião da Floresta

Com a água pelo joelho, o ancião da floresta contempla a imensidão do rio. O cajado em sua mão apoia a sua idade ou é o cajado com o qual abre o rio? Ninguem sabe.
A contemplação do rio o faz lembrar das suas poesias fluídas, aquelas que escorrem do poeta e desaguam no leitor. Poesias fluídas trazem anúncio e denúncia contra  aqueles que querem  destruir o rio por inveja: não aquentam ver a sua beleza e fluidez.
O Ancião olha para a floresta. Lembra das suas poesias verdes. Aquelas que apresentam a essência das matas, a fragilidade do verde e a luta contra a teima humana em destruí-la. As poesias verdes trazem à memória a fauna e a flora, os ruídos da floresta, do canto dos guaribas ao choro das  seringueiras. A fragilidade do verde não o incomoda, pois sabe que após sua partida o Curupira e o Saci continuarão a luta aqui.
O Ancião olha para o céu. Lembra das suas poesias azuis. Aquelas que defendiam as aves, tinham a assinatura das nuvens e o poder das chuvas. As poesias azuis exigiam ar puro  e a purificação das consciências humanas, insistentes em poluir.
A bermuda alva do ancião trazia a memória as suas poesias brancas. Estas  ensinavam a harmonia concatenada da floresta. Todo se completava, nada se desperdiçava, tudo de harmonizava. Um reflexo da pessoa do Criador.
O desnudo corpo frágil do Ancião apresenta seu peito testemunho em defesa do mundo. Os cabelos encaracolados revelam a beleza das cãs coreografando em ventos prateados.
A Boiúna passa no meio do rio e, reverente, lhe presta justa homenagem.
O Ancião da Floresta lembra quando nasceu, de um encontro da lua com o rio, num lugar encantado cheio de botos cor-de-rosa chamado Barreirinhas.
Ele permanece ali mais um pouco, em banho poético e em deleite inspirador. Depois de noventa e cinco invernos verdes sabia que pouco tempo lhe restava, porém de tempo não precisava.
Finca o cajado na água e caminha na direção do rio. Volta para sua casa.
Sons da floresta o homenageiam, reconhecendo seu legado, uma revoada de garças o saúda, um bando de capivaras o fitam, as águas do rio dançam sua poesia.

Toda a floresta canta sua vida.

Seu nome é Thiago de Mello, o poeta.

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(Homenagem ao poeta amazonense Thiago de Melo, 1926 – 2021)

*ATENÇÃO: esta obra é protegida pela Lei de Direitos Autorais (Lei 9.610/989) e foi registrada. É permitida a publicação em sites e blogs desde que citado o autor e a fonte com link. Para publicações em livros e e-book pagos, envie um e-mail para aldairars60@gmail.com para receber a autorização gratuita para publicar.

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2 comentários em “O Ancião da Floresta

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