(Des) Vocação

Leninha era uma jovem cuja vocação para cozinhar era completamente inexistente. Não era ausência da vocação, era uma espécie de desvocação (se é que essa palavra existe) completa. Nada do que Leninha fazia na cozinha, funcionava ou era bom. Parecia um tipo de feitiço: todos os pratos davam errado. Ela atribuía o fato à falta de experiência, pouco tempo na gastronomia cotidiana (cozinhava só há 15 anos!).

Leninha fritava um ovo e ovo ficava ruim. Fazia um macarrão e saía duro e sem sal. Fazia um arroz e ficava sem gosto e empapado. Fazia feijão e  ficava duro e salgado. Fazia um frango e ficava seco demais. Fazia pão caseiro e saia duro e queimado. Fritava um bife e saia sem sal. Fazia um peixe em caldeirada, saia sem gosto. Os amigos brincavam dizendo que ela deixaria queimar se fosse esquentar água na chaleira.

Os amigos, percebendo a, digamos assim, “inabilidade” de Leninha para cozinhar, pagaram-lhe um curso rápido de cozinha básica. O arrependimento dos amigos veio a galope. Leninha fez o curso e depois chamou os amigos para testar as comidas que aprendeu. O curso não surtiu efeito desejado. Os amigos passaram uns dias sumidos (problemas intestinais!).

Sabe a pior notícia? Leninha amava cozinhar! Como se explica isso? Ora, Leninha, além de se dizer inexperiente, costumava não provar seus pratos. Fazia para os outros.  Amava doar o seu talento para os outros. Via isso como uma missão solene e sagrada.

Tão sagrada era essa missão de cozinhar, que resolveu fazer um curso superior de gastronomia… à distância, on-line. E assim o fez.

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Aula vai, aula vem, Leninha ia fazer a sua primeira moqueca de peixe com camarões rosa, sob supervisão on-line da professora. Era o primeiro teste do curso à distância.

Fez as compras, arrumou toda a cozinha, separou ingredientes e lá foi fazer a moqueca virtual supervisionada. Fez tudo passo a passo para a professora se surpreender com sua habilidade. Prato no fogo. Cheiro bom na cozinha. Chegou a hora de provar a prova.

Leninha dá uma ou duas garfadas. Está horrível, intragável. Argh! Caldo insosso, peixe fora do ponto, terrivelmente difícil de apreciar. O que teria acontecido? Só trocou alguns ingredientes na feira por outros mais baratos, eram diferentes, mas para ela não fariam diferença. Na hora de fazer trocou algumas coisinhas, colocou pouco sal para não salgar demais e acrescentou outros temperos que não sabia bem como ficariam. Mas tinha visto na TV, então colocou sem medo. Engole as garfadas a muito custo. Faz cara de satisfação e sorri para a câmera.

 “Uma delícia, professora! Me surpreendi comigo!”

Daí em diante Leninha tirava 10 em todos os testes online de gastronomia.

Que maravilha o milagre da educação à distância!

*ATENÇÃO: esta obra é protegida pela Lei de Direitos Autorais (Lei 9.610/989) e foi registrada. É permitida a publicação em sites e blogs desde que citado o autor e a fonte com link. Para ser publicada em livros e e-book pagos, envie um e-mail para aldairars60@gmail.com para poder receber a autorização gratuita para a publicação.

**As fotos foram retiradas do Google. Se você é o dono de alguma delas, entre em contato, para que possamos dar os devidos créditos.

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