Volp

Seu nome era Volp. Um jovem lobisomem. Um lobo comum na cidade dos lobisomens. Naquela cidade a lua cheia era perene e a licantropia era eterna nos seus moradores. O jovem Volp cresceu como um lobo normal, assustando e dilacerando humanos das cidades vizinhas e brigando com outros lobos, exceto por uma peculiaridade, uma singularidade perturbadora: seu pelo era cor de rosa! Isso mesmo, cor de rosa. Uma anomalia genética lupina inexplicável e desconcertante para um lobisomem. Explico. Todo  lobisomem deve ter pelos negros para que seja o mais terrível possível. Pelos negros fazem parte da assustadora natureza lupina. Mas a natureza de Volp parecia rosa  e não negra. Com essa pelugem de matiz, digamos, “singular”, ao invés de assustador, Volp parecia… fofo! Desconcertante situação.

Sua vida lupina de criança e adolescente lobo foi difícil. Na escola dos lobos era motivo de chacota por causa da cor do pelo. Os apelidos se multiplicavam:  “Pelúcia”, “Ursinho”, “Fofo”, “Lupi Barbie” e assim por diante. Foi um tempo humilhante.  

Volp senta-se à mesa do bar e toma seu drinque de sangue. Relembra os fatos recentes de suas saídas para assustar e se alimentar. Tentou assustar um jovem humano que queria tocar o seu pelo e saber se era algum cosplay. Foi dilacerado. Um estilista humano ficou encantado (não assustado) com a textura rosa lupina e queria saber onde Volp fabricou a fantasia. Foi dilacerado. Um casal teve uma crise de riso (e não crise de choro) quando viu Volp na luz. Foram dilacerados. Um caçador ficou interessado na pele rosa, pois deveria valer algo a mais no mercado negro de pele de animais. Foi dilacerado. Um dono de zoológico o convidou para morar no zoo e ser uma das atrações. Foi dilacerado. Um dono de circo apresentou-lhe um contrato para fazer um espetáculo bizarro no seu picadeiro. Foi dilacerado. Cumpria sua natureza de dilacerar, mas sofria com o estigma vermelho-claro.  Volp não aguentava mais tanta humilhação rosa. Precisava ser um lobisomem de pelo negro.

Seus amigos lobos jovens compartilhavam da sua tristeza. E foi dos amigos a ideia de usar tintura negra para pintar os pelos de Volp. Ele relutou, mas fez a tintura nos pelos. Funcionou. Os pelos, absolutamente negros, como que recuperaram toda a tenebrosidade do jovem lobo. Sentia-se um verdadeiro dilacerador, mais confiante, mais corajoso, mais malvado, mais… lobo! Suas garras ansiavam por novas vítimas. Estava revigorado. Finalmente podia dilacerar sentindo-se assustador e verdadeiramente lobo com a nova pelugem. Só tinha um pequeno inconveniente: a tintura saia com água. Mas o problema estava resolvido.

Por precaução, em dia de chuva Volp não saia para assustar e dilacerar, fazia jejum.

ATENÇÃO: esta obra é protegida pela Lei de Direitos Autorais (Lei 9.610/989) e foi registrada. É permitida a publicação em sites e blogs desde que citado o autor e a fonte com link. Para ser publicada em livros e e-book pagos, envie um e-mail para aldairars60@gmail.com para poder receber a autorização gratuita para a publicação.

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