O Menino reprocessado

O menino caminhava no corredor em direção a sala do reprocessamento. “Reprocessamento…”, pensava ele na palavra. Até hoje ele não tinha entendido bem o que era aquilo, embora sua mãe e sua professora tenham explicado isso desde que ele nasceu. “Você será melhor”, “saberá de tudo”, “toda criança de 7 anos deve ser reprocessada”, “é a lei do nosso planeta”, “tudo será diferente”, “muito melhor”, essas falas ecoavam na sua mente enquanto seus pés verdes cruzavam a porta da sala de reprocessamento.

Se lembrou de vários amigos seus que também completaram 7 anos. Eles eram alegres, brincalhões, riam demais, viviam inventado coisas, naves, robôs, teletransportadores, supercomputadores e essas coisas que crianças plutonianas de 7 anos normalmente fazem. Mas quando foram reprocessados, mudaram. Ficaram sérios, não brincavam mais, agora estudavam numa escola diferente. Lá não tinha recreio. Será que ele ficaria assim também? Um menino triste e, depois,  um adulto que não sorri?        

O menino foi colocado na mesa, pessoas muito sérias prenderam seus pés e seus três braços esquerdos. Nesse momento alguém os chama da outra sala. Curiosamente não prenderam seus três braços direitos. Teriam esquecido? Saíram da sala. O menino só meditava em como ficaria sendo triste. De repente teve uma idéia. Já que ficaria triste para sempre aproveitaria o momento para brincar um pouco. Usando os braços  livres, desprendeu-se e começou a brincar de nave espacial naquele mundo de painéis, controles, botões e luzes na sala. Ele adorava brincar de piloto estelar. Seu sonho era conhecer o Cinturão de Órion que ficava só há 100.000 anos-luz dali.

Subitamente algumas luzes vermelhas começaram a piscar, uma sirene ensurdecedora soou. O menino, com medo de ter feito algo errado correu para a terceira sala e escondeu-se. Ouviu o desespero dos adultos: “auto-destruição ativada”, “evacuar a área”, auto-destruição”, “todos para fora”. Com mais medo ainda correu para o corredor, se juntou à multidão do prédio e saiu para a rua. Correu o mais que pode com a sensação de que alguém estava correndo atrás dele. Momentos depois ouviu uma grande explosão que o lançou ao chão. Agora o menino chorava. Ralou os quatro cotovelos e a orelha pontuda. Mesmo assim, correu em direção de casa, para os braços de sua mãe.

Alguns dias depois, o menino ainda não entendia bem o que aconteceu. Ele foi o culpado de tudo? Guardava esse segredo no coração de doze ventrículos. Ouvia as  notícias estelares e ouvia os adultos de sua casa: “o reprocessador central foi destruído”, “uma perda”, “autoridades investigam o que aconteceu”, “levará 896 anos plutonianos para reconstruir”, “todos os chips reprocessadores implantados foram desligados”, uma catástrofe sem precedentes”, “até agora não se sabe o que aconteceu”,… O menino pega seu robô preferido, que ele mesmo havia feito, e sai para brincar. Seus amigos, antes reprocessados, o aguardam para brincar. O menino não entendeu bem o que aconteceu. Só sabia que não estava mais com medo. Estava mais feliz.

(ATENÇÃO: esta obra é protegida ela Lei de Direitos Autorais e foi registrada. É permitida a publicação em sites e blogs desde que citado o autor e a fonte com link. Para publicações em livros e e-book pagos, envie um e-mail para aldairars60@gmail.com para receber a autorização gratuita).

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