Hipocrisia

Na Diretoria, Júlia olha firme para a professora. Olhos cheios de revolta. “Julinha, você tem coragem de mentir, querida?”. Júlia lembra os fatos anteriores em sala de aula.

Júlia gosta de falar, quer ser jornalista porque jornalista “fala muito”. Ruídos, conversas, debates, conflitos. O calaboca da professora estoura várias vezes. Sirene. Turma saindo. A professora briga com a menina conversadeira. “Porque a professora está assim?” – pensa. No meio da bronca, Júlia fala, gesticula, dá uma resposta. A mão voa, choque surdo, dor. Um tapa! A professora lhe deu um tapa! As colegas já tinham saído. Ninguém viu. Choque. A professora se vira e sai. “Estressada”, assim chamavam aquela professora.

Júlia paralisa, sem acreditar. “Ela não podia fazer isso comigo”, “não pode me bater aqui na escola” – pensava, acordando do choque – “não pode me bater em nenhum lugar”. O choque vira revolta. A revolta vira choro. O choro vira firmeza. Vai à Diretoria. Chorava de raiva.

A professora me bateu, me deu um tapa!”. Lágrimas rolam, o corpo treme. A Diretora manda chamar a professora. Simula uma acareação já sabendo do resultado. Ela confiava nos seus professores. “São todos profissionais pós-graduados e éticos” – sempre dizia.

Julinha, você tem coragem de mentir, querida?” – disse a professora. Olho no olho. As duas sabiam o que aconteceu, mas a professora disse pelo olhar: “jamais acreditarão em ti, guria conversadeira!”. Assunto encerrado. A Diretora agradeceu a professora e passou o maior sabão na Júlia.

A caminho de casa, Júlia sabia que sua mãe não acreditaria. Se a mãe tivesse que ir à escola, era surra certa. A raiva escorria com as lágrimas. “Não há uma máquina para medir a verdade das crianças e um tribunal para julgar as professoras injustas e mentirosas?”- pensava.

Perto de casa o coração já estava aliviado. Não tinha outro jeito. Se engolir a raiva dá indigestão no coração. É pior.

Ao entrar em casa fez uma oração agradecendo ao Pai do céu pela professora. Esta havia lhe ensinado uma lição inesquecível, através da qual aprendeu o real significado de uma palavra nova que conhecera outro dia. Júlia aprendeu muito bem com a professora o significado da palavra “hipocrisia”.

Crônica selecionada e publicada na antologia nacional “Palavras desavisadas de tudo”.

São Paulo: Editora Scortecci, 2013.

(ATENÇÃO: esta obra é protegida ela Lei de Direitos Autorais e foi registrada. É permitida a publicação em sites e blogs desde que citado o autor e a fonte com link. Para publicações em livros e e-book pagos, envie um e-mail para aldairars60@gmail.com para receber a autorização gratuita).

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